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Sequestro
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Sequestro

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Pendurado no largo balcão da Biblioteca Mário de Andrade, esperava ser atendido, quando observei uma prateleira com alguns livros exibindo os dizeres “Devo, Não Nego” como se fosse o letreiro de um filme em cartaz. “O que quer dizer aquilo?”, perguntei para a atendente que se encolhia atrás do balcão.

Esticou os olhos por cima da armação dos óculos, “São os livros que foram resgatados. As pessoas pegam emprestado e levam até anos para devolver”. “Como se fosse um…sequestro?”, tentei fazer piada e obtive um olhar duro como resposta. Livros que não voltam são um assunto sério nas bibliotecas.

Livros sequestrados desenvolvem Síndrome de Estocolmo. São livros aventureiros que se gabam, livros viajados, páginas que se impregnaram com outros cheiros, encadernamentos comidos pela poeira da estrada, capas úmidas das peças que o tempo prega.  São livros que viram o mundo sobre o qual contaram, as emoções que tentam descrever, que experimentam a liberdade que buscam ofertar.

É errado, é danoso, é hediondo, sequestrar um livro é pecado dos brabos, mas naquele instante eu não estava pensando no bem-estar dos usuários órfãos das Memórias Póstumas de Brás Cubas, dO Cortiço, nem de Os Sertões. Eu pensava mesmo era na cara de sapeca dos livros que conseguiram se imaginar libertos dali.

A nossa cumplicidade foi imensa. Talvez porque vez ou outra eu também deseje ser levado, ser puxado pelo braço, num sequestro bom. Eu rezo para ser tomado, roubado da minha rotina, da minha prateleira, do meu dia comum. Eu vivo imaginando que alguém virá me contar algo inimaginável, me mostrar o novo, me salvar de mim mesmo. Eu vivo pensando que as minhas mesmas histórias talvez emocionem em outro lugar. Por favor, desrespeite o meu prazo de devolução.

 

(Fonte: Portal Palavra Cronica / Foto: Google – Leia Livro)

 

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