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Salvador
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Salvador

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Me solte! Exclamou o vendedor de água, em alto e bom som, para que o motorista do ônibus (vulgo busu) abrisse a porta para ele descer. Se isso acontecesse em outras paragens, diriam que o cidadão era maluco ou algo do tipo. Mas como aconteceu em uma terra chamada Salvador, o fato simplesmente incorporou-se ao cotidiano, como o mais trivial dos acontecimentos.
Em primeiro lugar, porque aqui motorista não é motorista, é “motô” e cobrador não é cobrador, é “cobra”.
Esse canto do mundo, de tão original e surpreendente, poderia ser decretado como um país, de tão peculiares que são a sua cultura e o seu povo. E os pontos turísticos, então? Têm formas e energias indescritíveis, “perfumadas” com a famosa maresia que, aqui, também dá nome a tudo que acontece “devagar, quase parando…” .
Para exemplificar, podemos começar pelo Centro Histórico, coração da cidade. Foi ali que tudo começou: a primeira rua, a primeira vila, a primeira igreja, a primeira luta… Sim, porque o povo baiano é lutador e Salvador é marcada por traços dessa história com seus fortes e sua Baía de Todos os Santos. Para contemplá-la, basta parar no alto, ao lado do Elevador Lacerda, e pronto: se tem ao alcance dos olhos um dos mais lindos cartões postais do mundo. Depois que a gente acorda do transe, é hora de verificar que tudo aquilo que foi visto lá embaixo é de verdade. Então, pegamos o velho Lacerda e descemos, indo ao encontro do Mercado Modelo, do Comércio, da Conceição da Praia. Estamos na Bahia, não tem mais jeito. Se você não quiser ser fisgado, apesar de todos os problemas que sua capital também possui, saia correndo.
Mas não vá em direção ao Farol da Barra. Lá, a sua resistência vai ser minada em quase oitenta por cento do que lhe resta de forças para ir embora. Por que ali, meu senhor e minha senhora, está outro encanto a sequestrar o turista mais desavisado e a continuar enfeitiçando os já cativos moradores. Quietinho, rodeado de grama, pedras e mar, o farol observa o movimento de um bairro que nunca para. A Barra é canto oficial do carnaval (a maior festa popular do planeta) e de outras tantas manifestações artísticas que se desenrolam ao longo do ano.
O visitante mais “esperto” dirá então: “Já sei. Vou para bem longe, onde os encantos de Salvador não poderão me alcançar”. Aí me inventa de ir para Itapuã e lá chegando, coitado, é rendido e entrega os pontos. Diante de outro farol, ele descansa exausto da luta travada para não se apaixonar por essa terra, cheia de sol e calor humano. Talvez isso justifique a fala de outro vendedor ambulante ao descer, dia desses, do busu, frustrado por não ter vendido suas garrafinhas d’água: “Motô, deixa eu sair que aqui só tem camelo!”

Silvana Lima

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Lena Sena foi empresária do mundo da moda e também do segmento de alimentação. É designer de interiores e paisagista, duas de suas grandes paixões. Também é arteira, como gosta de ser chamada entre os que trabalham com artesanato, atividade que continua a lhe conferir belas criações.

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