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Minhas Lembranças
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Minhas Lembranças

Hoje, um sábado ensolarado com o céu cor de anil e um vento que chegava arrastando uma temperatura de 35°estava sentada na varanda contemplando meu pé de Acácia amarela com seus cachos exuberantes que me fez lembrar as primaveras no Japão.
Parece ouro cintilando ao sol!
Levantei , fui pegar um livro de arranjos naturais que recebi de presente no Natal, de meu filho , e fiquei embebecida com a beleza das flores e das infinitas possibilidades de enfeitar a casa, quando fui levada a relembrar o ano de 1960, tudo por conta da foto de um arranjo lindo de Dálias. Viajei num supersônico através da emoção.

Menina, e menina pobre, filha de dois artesãos, fui criada aprendendo a limpar, a bordar e cozinhar, porque nossos recursos não davam para ter secretarias naquela época.
Era uma casa pintada de um branco desgastado, com porta e janela na cor verde, e o chão era de cimento vermelho. Meu quarto, uma nesga dividido por uma porta que tinha uns vidros coloridos, que lembram vitral com o de meus pais.

Adorava arrumar aquele pequeno cômodo, virando e revirando a cama e mais uma cômoda com um espelho na parede, onde mirava minha beleza infantil, e sorria para mim mesma.

Minhas obrigações eram de aprender a arrumar nossa casa. E aprendi. Gostava muito quando chegava sexta-feira, e passava cera Cachopa Vermelha no piso, para depois várias vezes, passar o escovão até chegar ao ponto de colocar uma flanela em baixo dele e abrir o brilho final. Kkkkkkkkkkkk!

Acho que enxergava minhas calcinhas por baixo da saia rodada de tão brilhoso que ficava.
Era lindo…parecia os porcelanatos atuais tão disputados como sinal de status .
Depois da casa limpa e cheirosa, as camas e mesa eram ornadas com verdadeiras peças de arte de bordado tipo Richelieu, Crivos e Pontos Cheios, feitos por minha mãe.

Chegava a hora de providenciar as flores para embelezar nossa casinha.
Morava na rua Felisberto Caldeiras, não lembro o número, fica na parte alta que dava para a estrada da Rainha já chegando a Baixa de Quintas. Ali existiam várias hortas onde se vendia temperos, quiabos, maxixes e flores, mais exatamente Dálias, Cravos e Sorrisos de Maria.

Eu descia a pequena ladeira de chão batido, esses caminhos como os que levam aos morros, e chegava palpitante de alegria para comprar as flores. Subia ladeirinha acima com o feixe de Sorriso de Maria e Dálias. Cuidadosamente ,arrumava os jarros e ia colocando na mesa, no aparador e mesinhas laterais.

Hoje, junto com as flores, pude sentir de novo, depois de tantos anos, o cheiro daquela casa.
Era um lar… cheirava a bolo e rosquinhas fritas com açúcar e canela. Havia amor, também havia o medo enorme de papai porque sempre foi muito exigente; havia mamãe a bordar e lutar pela vida, havia meu irmão fabricando jogos de futebol em mica, e pipas coloridas com rabadas cheias de vidro (que perigo) para vender. (Ele sempre gostou de dinheiro).

Havia sonhos misturados a incertezas, havia amor.

Foto: Google
Lena Sena/texto

Lena Sena foi empresária do mundo da moda e também do segmento de alimentação. É designer de interiores e paisagista, duas de suas grandes paixões. Também é arteira, como gosta de ser chamada entre os que trabalham com artesanato, atividade que continua a lhe conferir belas criações.

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