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Hagamenon Brito: O homem que um dia encontrou o silêncio
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Hagamenon Brito: O homem que um dia encontrou o silêncio

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Viajei décadas até te encontrar. Nesta longa estrada da vida, vi (e fiz) coisas que, às vezes, nem eu mesmo acredito. Sequências que não sei se entrarão na montagem final do filme do meu destino. Atores escalados inadequadamente, convidados que decepcionaram, diálogos ruins, aparições relâmpagos, microfone aparecendo em cena…

Simples, mas diferente. Detalhes da caminhada de um homem em direção à sua própria lenda, algo que é sempre original para cada um (dos sete milhões de humanos no planeta). Quando tudo começou a fazer sentido, na distante galáxia dos anos 60, a fama no show business não era um mero objetivo midiático e, sim, consequência de anos de trabalho, de dedicação e de uma boa dose de sorte.

As pessoas queriam, então, mudar o mundo com ideais, arte, espiritualidade e política. Queriam abrir as portas da percepção para outros sons, outros campos, outras pulsações mundo afora. Pensava-se que era possível não ser influenciado pela mediocridade que Andy Warhol, afetado e sábio pop, presentia em sua frase mais famosa.

Mas, como as estações existem para nos lembrar que as coisas mudam, segui(mos) em frente. Do Inverno, guardei chuvas e nomes. Do Outono, folhas e faces. Da Primavera, flores e promessas.  Finalmente, o Verão chegou trazendo cores, canções e, especialmente, você. Tudo que fiz e vivi foi para chegar a você, te conhecer, te amar.

E duvidei de Albert Camus e te entreguei tudo que guardei de melhor entre os solstícios e os equinócios do planeta que construí para mim – chuvas, nomes, folhas, faces, flores, promessas, cores, canções. Era o mínimo que eu podia fazer por quem me fez encontrar o silêncio que há no amor, na forma mais sublime de amor.

***

A tua delicadeza removeu a armadura do gladiador grego. Na adolescência, quando entendi que a solidão seria minha companheira até o círculo se fechar para sempre, fiquei assustado. E quanto maior o medo do escuro, maior a miopia diante do amor (ou do que a literatura e o cinema chamam de amor).

Depois, e vendo experiências na minha própria família, entendi que essa tal solidão poderia ser uma boa companhia e que o amor romântico, como eu sentia e vivia, estava me despedaçando aos poucos. Uma bala na têmpora a cada crise, um desejo de morte. Em alguns, a paixão provoca alegria e fome. Em mim, angústia e anorexia. Decidi encarnar Harvey Keitel (que lembra meu pai), então.

***

Senhor, tendo andado no vale da vida e são muitos os amigos que vêm à minha mesa, comer do meu pão e beber do meu vinho. Que a vossa bem-aventurança esteja sempre comigo e com a minha família, os meus amigos e os meus gatos. Senhor, a existência já não me angustia. Do meu sofá amarelo, vejo o milagre acontecer.

***

Foi como Harvey Keitel que eu te escolhi (ou terá sido você que me escolheu?). Com você, entendi melhor o meu pai e a minha mãe, compreendi do que é feito realmente um homem. A existência se tornou especial, enfim, amore.

***

E isso é apenas pulp fiction, homeboy.

(Fonte: Portal Jornal Correio da Bahia – Hagamenon Brito / Foto: Blog Leyendas-do-oriente)

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Lena Sena foi empresária do mundo da moda e também do segmento de alimentação. É designer de interiores e paisagista, duas de suas grandes paixões. Também é arteira, como gosta de ser chamada entre os que trabalham com artesanato, atividade que continua a lhe conferir belas criações.

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