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Coragem & Medos
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Coragem & Medos

Tenho a sensação que estou em estado de choque diante da minha perseverança da minha ousadia.
Passei anos da minha vida desejando retornar ao prazer de viajar .
Loucura pode parecer , porém vocês não fazem ideia que uma pessoa acostumada a viagens tenha ficado 24 anos sem conseguir entrar num avião.
É verdade! Aconteceu comigo.
Passei todos esses anos buscando entender o que aconteceu e as respostas não vinham o sofrimento só aumentava pois acreditava que outros entraves existiam que não conseguia identificar.
O tempo foi passando num desfolhar de emoções e perdas acentuadas. Nada encaixava. Aos poucos me auto desculpava, dizendo para mim que talvez meu tempo de viajar, explorar novos caminhos, novas emoções, tivesse ficado num passado bem longínquo.
Algo não me deixava esquecer.
Queria rever lugares, conhecer outros tantos , me achava merecedora dessas alegrias que nos invade quando nos descobrimos turistas.
A vida me presenteou com muitas conquistas boas, mas também usou o chicote com força deixando em mim cicatrizes que doeram anos a fio.
Nas perdas dolorosas que vivenciei de pessoas amadas que saíram da minha vida , na força que tive ao extrair do meu mais profundo ser para enterrar meu pai, meu marido, e acompanhar o desenvolvimento lento da perda de memória de mamãe, proveniente do Alzheimer, senti que meu outono particular havia chegado.
Me deixei desfolhar… As dores no corpo e as dores emocionais tiravam de mim o que precisava sair no desfolhar das emoções, nutrindo o solo e aguando com as lágrimas abundantes.
Acalmei no outono. Esperei meu processo de poda acontecer no seu tempo e ressurgir na Primavera.
Fiz pontes, amigos passageiros e amigos para toda uma vida.
Tudo era importante. Um sorriso que chegava, um abraço um elogio.
Comprei pseudo amigos. Tudo fazia parte da minha sobrevivência, do meu caminhar rumo ao destino da minha cura.
Descobri meus algozes, descobri também que muito do sofrimento emocional já tinha sido escolhido lá atrás nas inúmeras escolhas feitas .
Me perdoei por não ser perfeita.
Me perdoei por não ser amada no círculo familiar, por não corresponder às expectativas.
Me perdoei por amar.
Aprendi a me respeitar dentro da minha fragilidade e também dentro do bicho solto que habitava em mim, abrindo as portas várias vezes para por ele ser defendida.

Acolhi quem quis ficar.
Rejeitei migalhas pois aprendi que mereço inteiros.
Aprimorei minha capacidade de ter empatia e passei a entender e valorizar a capacidade que tenho de me reinventar, de ser resiliente.
Liberei o perdão para algumas pessoas mas continuo mantendo-as afastadas do meu convívio; o perdão me fez bem.
Fiz e continuo fazendo minha faxina emocional.
Agora bem mais amadurecida desfruto de uma leveza que só conhece quem verdadeiramente
diminuiu a bagagem.
Vocês podem perguntar porque escrevi tanto para explicar o medo que transformou-se em Síndrome de Pânico, que me apresentou à tarja Preta.
O viajar, o avião , o ônibus apenas representam a teia que fiquei presa todos esses anos.
Nunca existiu um só motivo mas todos os motivos .
Cada vez que permiti invasão no meu eu, na minha escolha, nas relações abusivas vividas, estava alimentando meus algozes permitindo mais chicotadas.
Restaurar a confiança em mim , me enxergar plena e capaz me levou de volta a viajar de avião.
Entrei como se tivesse feito uma viagem na semana passada. Me encontrei ali onde me esqueci durante 24 anos. A mão transpirou , o coração disparou, nada de novo, isso sempre aconteceu.
Que alívio me reencontrar depois dessa longa espera por essa viagem. Gratidão pelas pessoas especiais que fizeram pontes sólidas comigo, e que sabia que estariam sempre do outro lado me esperando.
Que orgulho sinto de mim.

LS

Lena Sena foi empresária do mundo da moda e também do segmento de alimentação. É designer de interiores e paisagista, duas de suas grandes paixões. Também é arteira, como gosta de ser chamada entre os que trabalham com artesanato, atividade que continua a lhe conferir belas criações.

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